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Brasileiros passam vergonha com assédio a russa

Publicado dia 19/06/2018 às 14h21min
A Embaixada do Brasil recebeu cartas de brasileiros que, constrangidos, pediam desculpas pelo episódio e pelo comportamento do grupo que estava na Rússia e vestia a camisa da seleção.

 

Um dia depois de o vídeo em que aparece um grupo de torcedores constrangendo uma mulher na Rússia viralizar nas redes sociais, organizações feministas pernambucanas se pronunciaram repudiando a atitude dos homens, dos quais pelo menos quatro são brasileiros. Nas imagens, eles, todos vestidos com a camisa da Seleção, entoam palavras de baixão calão ao lado de uma estrangeira e a incitam a repeti-las. Como não entendia a língua portuguesa e, portanto, sem ter ideia do significado do que é induzida a falar, a mulher entra no que, para ela, parece uma brincadeira de torcida. Um dos integrantes do grupo é o ex-secretário de Turismo de Ipojuca (Litoral Sul de Pernambuco) e advogado Diego Valença Jatobá, à época filiado ao PSB.

Um dos posts que gerou mais repercussão do vídeo foi de um usuário do Facebook identificado como Cristiano Santos. No domingo (17), já contava com mais de oito mil compartilhamentos e 13 mil curtidas. Nesta segunda-feira (28), já são mais de 60 mil curtidas e 39 mil compartilhamentos.

Mulher e presidente da Por Vós, associação feminista que tem como missão construir um canal de diálogo entre o feminismo e mulheres jovens, Taynah Soares analisa o vídeo como um reflexo do que acontece diariamente na sociedade patriarcal brasileira:

Confundir assédio com brincadeira é uma justificativa muito comum, mas que na verdade é só uma repetição de um pensamento hegemônico machista. O que não falta é homem fazendo piadinha sobre assédio, estupro e/ou violência contra a mulher e justificando como brincadeira. O problema é que isso reforça uma ideia que, como consequência mais grave, mata mulheres.

Para Taynah Soares, o vídeo também demonstra que o futebol ainda é um ambiente majoritariamente masculino, no qual os homens enxergam as mulheres que estão inseridas nele como objetos de desejo suscetíveis a satisfazer as vontades masculinas, quando a mulher não tem vontade própria. É o que acontece nas imagens, já que a estrangeira nem sabe o que está falando. “Nossa sociedade nutre um pensamento misógino que desrespeita e assedia mulheres como se fosse algo normal. Isso é preocupante porque meninos desde muito pequenos acabam aprendendo e reproduzindo essas mesmas atitudes como se fosse o certo a fazer”, comenta.

Além do machismo, vídeo expressa racismo

A expressão dita pelos homens nos vídeos também tem cunho racista. De acordo com Taynah Soares, ao relacionar o órgão genital com a cor “rosa”, além de ser extremamente desrespeitoso com a mulher que aparece nele, e a todas em geral, tem o objetivo de atingir em especial as mulheres negras, aquelas que não têm o órgão genital “rosa”. “É uma expressão associada às mulheres brancas, representantes do padrão de beleza exaltado pelos homens machistas e racistas que fizeram o vídeo”, explica.

Bebida alcoólica não é desculpa

Outra atitude comum na sociedade é de os homens se aproveitarem de uma mulher quando ela ingere bebida alcoólica com a justificativa de que ela sabia o que estava fazendo. Não podemos afirmar que a estrangeria havia consumido álcool durante a partida entre o Brasil e a Rússia, mas, se foi o caso, não torna aceitável o ocorrido. “Os homens do vídeo podem até tentar justificar dizendo que ela estava bêbada, mas não é porque a pessoa bebeu que pode ser violentada”, comenta Débora Guaraná, comunicadora do Instituto Feminista para a Democracia SOS Corpo.

Projeto Mete a Colher classifica atitude dos brasileiros como vergonha

A rede de apoio às mulheres vítimas de violência doméstica Mete a Colher se posicionou sobre o vídeo em sua página no Instagram e classificou a atitude dos participantes como uma vergonha. Para o coletivo, os brasileiros estão longe de conquistar qualquer campeonato quando nem sequer conseguem respeitar uma mulher.

No texto, as responsáveis pelo coletivo escreveram: “O torcedor brasileiro está longe de respeitar a mulher no quesito futebol. No ano em que estamos cada vez mais lutando contra a violência e assédio que sofremos diariamente, uma dúzia de brasileiros engana uma mulher, que não entende a língua portuguesa, e comete uma atitude que envergonha a todas e todos os demais brasileiros, além de praticar um ato de assédio. Ah, um deles é um político pernambucano. Vergonha!”.

Vídeo é retrato negativo da política pernambucana
Vídeo com torcedores brasileiros na Rússia durante suposta brincadeira com mulher se transformou em polêmica. Diego Jatobá está na direita.Foto: Reprodução

Vídeo com torcedores brasileiros na Rússia durante suposta brincadeira com mulher se transformou em polêmica. Diego Jatobá está na direita.Foto: Reprodução

Um dos homens que aparece no vídeo é Diego Jatobá, ex-secretário de Turismo de Ipojuca (Litoral Sul de Pernambuco) e advogado, à época filiado ao PSB. O PSB informou que Diego está com a filiação suspensa porque ele não teria feito o recadastramento obrigatório, conforme nova resolução do estatuto partidário, aprovada em 2016. Em 2000, Diego, que tem 43 anos, se candidatou a vereador do Recife, pelo PSL, e ficou na suplência, com 1.073 votos.

Não é a primeira vez que Diego Jatobá, cuja atuação como Secretário de Turismo se deu durante a gestão do ex-prefeito da Ipojuca Pedro Serafim (PDT), se envolve em uma polêmica nas redes sociais. Em 2013, uma foto publicada no seu perfil pessoal em que ele aparece segurando um maço de dólares virou alvo de críticas no Facebook e no Twitter. Na época, Diego se defendeu afirmando que a imagem era apenas uma brincadeira de amigos dentro de uma casa de câmbio.

Exibir alguém envolvido com política torna o vídeo ainda mais grave. “Isso porque a gente espera dos políticos que eles assumam cargos para nos proteger, mas aconteceu justamente o contrário”, comenta Izabel Santos, especialista em Direitos Humanos e uma das coordenadoras do Centro das Mulheres do Cabo. Além disso, as imagens são também uma representação de que o machismo é presente em todas as classes sociais.

“A gente vê quem são as pessoas que tão fazendo política e estão no poder hoje. Mas isso vai para além do sistema político, é um sistema patriarcal”, reflete Débora Guaraná, comunicadora do Instituto Feminista para a Democracia SOS Corpo. Taynah Soares, da Por Vós, faz um apelo para que o caso sirva como reflexão:

A situação fica pior quando a gente para pra refletir que um dos caras do vídeo já foi candidato a vereador do Recife e ganhou mais de mil votos. É importante refletir sobre isso. Que tipo de pessoa estamos apoiando e colocando nos espaços de poder?

 

Fonte: da redação